Estava em horário de almoço. Nesse dia, diferentemente dos outros, preferira almoçar sozinho. Geralmente se reunia com a turma do escritório para almoçar em um restaurante self-service perto da empresa. Pagava as refeições com o mísero vale-refeição de 8 reais que era insuficiente , mas quebrava um galho. Não fora a necessidade de vender os tickets para arrecadar um extra, ele estaria lá ; se divertindo com as velhas piadas do Edgar, fantasiando com os decotes da Sheila e degustando o melhor bife acebolado de São Paulo. No entanto ele estava ali na fila do churrasquinho grego. Era o que ele podia fazer com 5 reais. Comeria 3 churrascos com salada e teria direito a beber quantos sucos quisesse. Tentador , não? " Tentador uma ova" , diria Douglas. Desesperador, isso sim. O atendente , usando um avental branco , sujo, aberto no peito, suava copiosamente. Manuseava com certa maestria uma faca afiada . Com extrema facilidade cortava o pão, fatiava a carne, acrescentava um molho vinagrete e em surpreendentes 20 segundos tinha preparado parte do almoço de Douglas. Que desespero, hein? Naquele momento, para as dezenas de pessoas que se acotovelavam em busca de um espaço próximo ao carrinho do churrasco, pouco importava a péssima condição de higiene do local, o catchup que escorria do pão do exagerado cliente ao lado , ou até mesmo a nojenta visão de uma barba embebida de maionese do senhor que não dava a mínima pra tal de etiqueta. Todo esse cenário desanimador se desfazia diante da imagem imponente e sedutora da faca cortando e a carne caindo na travessa e indo pro pão, que delírio! E para conspirar contra os principios básicos do orgulho, a senhora fome. Fome que iguala a todos e derruba tabus, elimina preconceitos. Quem era Douglas diante da fome? Não era diferente de nenhum daqueles grotescos seres que o cercavam. Ele era mais um, escravo da fome e da grana.
Finalmente chegara sua vez. O atendente o serviu sem sequer olhar em seus olhos. Era um robô. Uma máquina de fazer lanches . Douglas manteve a pose. Comeu o primeiro lanche com certa delicadeza e postura. O que de imediato chamou a atenção de alguns. O que aquele almofadinha estava fazendo ali? Por quê não ia comer no restaurante? Será que vai pagar com cheque ou no cartão? Mal havia terminado o primeiro e Douglas pedira o segundo. "Sem salada , por favor'. O lanche até que estava gostoso, porém a salada tinha um gosto estranho. O tempero da carne estava maravilhoso. " Que tempero seria esse? ". Não era de se admirar que tantas pessoas comprassem o churrasquinho. Concluiu que não era só o preço a atração. O bicho era gostoso mesmo. Logo ao receber o segundo lanche já fazia planos para o terceiro. Que delícia!
Douglas já havia dado a primeira mordida no segundo lanche quando aquelle par de olhos sofridos o encararam. Era o sofrimento em um corpo raquítico de criança. Aquele ser impotente , surrado pela vida, desconhecido pela assistência social, escudo dos direitos humanos ...estava ali comendo com os olhos . Os olhos alcançavam o que a boca ansiava. Surpreendentemente o garotinho de rua falou. Na verdade não foi bem uma fala, foi um pedido.
_____Moço me dá um real?
Douglas sabia o que aquilo significava. Era uma mensagem codificada que só quem já sofreu na vida, como ele, seria capaz de decifrar. Não era 1 real que o garoto queria. Era socorro. Ele, o garoto, era a vítima mais cruel da implacável senhora fome.
_____Posso saber pra que o "Senhor' quer um real?
A pergunta não tinha a intenção de humilhar o garotinho e sim de alertar a todos, que assistiam aquela cena , para a realidade que nos mata silenciosamente. Era um grito de ' não estamos sós" , era um alerta de ' alguém precisa de nós'.
_____É que eu tô com fome moço.
Aquelas palavras foram mais afiadas que a lãmina da faca , que cortava a carne, que saciava a fome , que matava o garoto. " Eu tô com fome". Douglas encarou algumas pessoas e para sua surpresa e indignação, o semblante delas não apresentava nenhuma piedade ou cumplicidade. Aquelas pessoas pareciam hipnotizadas pela fome ou dominadas pela indiferença. Era como se aquela situação não lhes afetassem de maneira alguma." Se o garoto tá com fome é problema dele." " Cada um com seu cada um" , " Não tenho dinheiro pra sustentar vagabundo'
Douglas sentiu nojo da raça humana. Como podem ser tão mesquinhos, insensíveis, desumanos? Será que ninguém ali tinha filhos? Faltava Deus no coração daqueles pobres coitados. Mas Deus estava presente no coração de Douglas. E era esse o melhor momento de apresentar a maior lição que o Mestre ensinou. A caridade. O amor ao próximo. Era o momento de ser o bom samaritano.
_____Olha aqui filho...eu sei que o que você realmente quer não é um real. Você quer comer, né?
Dito isso ordenou ao atendente que caprichasse um lanche pro garoto.
Naquele instante, para surpresa de Douglas, a máquina de fazer lanches, o robô , o ser incomunicável que mal olhava seus clientes nos olhos , o encarou. Era o senhor do desprezo e frieza:
_____Tem certeza que quer fazer isso, mestre!
Mestre? Que história é essa de 'mestre'. E como assim ' tem certeza?"... Claro que ele tinha certeza. Era questão de honra. E se naquele momento ele é o "mestre' , seria muito bom se fosse respeitada a vontade do 'mestre', não?
_____Claro que tenho certeza. Pago o lanche com muito prazer.
Com voz firme e de certa forma autoritária o garoto ratificou:
_____Moço , eu só quero 1 real, por favor!
_____Calma filho, o rapaz vai fazer seu lanche.
_____Só um real moço!
Douglas , num ato de plena misericórdia, abriu mão de seu próprio lanche e ofereceu ao menino.
_____Vai comendo esse aqui enquanto o moço prepara o seu. Eu dei apenas uma mordida, viu? O lanche tá delicioso!
O que aconteceu a seguir não foi surpresa pra ninguém. Era como se todo mundo soubesse o desfecho de um filme que estava sendo repetido pela enésima vez.. O mesmo cenário, o mesmo script, o mesmo ator principal e um novo e talentoso coadjuvante. E o Oscar de otário da vez vai para....
_____ Quantas vezes eu tenho que dizer que eu só quero 1 real? Caralh...mano. Enfia essa p....de lanche no olho do seu c...
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