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3- Alforria

Era sexta feira para todas as pessoas dentro do metrô. Mas para Raquel, Felipe e Eduardo , era muito mais que sexta-feira. Era o dia da alforria. Eles , escravos do trabalho , estavam deixando a senzala denominada" empresa" para finalmente encontrarem a liberdade denominada" casa." Iam e voltavam do trabalho juntos, todos os dias. Enfrentavam dois ônibus e um metrô em quase duas horas de percurso entre Mauá e Barra Funda. A rotina só não era pior porque eles estavam juntos. Eram amigos de longa data e foi essa amizade que os conduziram á mesma empresa.
Raquel era casada, mas não usava aliança no dia a dia, só quando estava em casa ou em alguma reunião social, especialmente se o marido, policial militar , estivesse presente. Questionada porquê não usava aliança , Raquel limitava-se a dizer que era algo muito pessoal. Vai entender , né? Felipe e Eduardo eram solteiros , pelo menos era o que diziam; e realmente nunca haviam mencionado nenhuma companheira fixa. Eram adeptos do "viver a vida'.
E era vivendo a vida que eles se divertiam criando personagens, brincando com a imaginação das pessoas, fazendo o tempo passar. As vezes Felipe e Eduardo eram homens apaixonados que se declaravam para uma confusa Raquel , dividida entre duas paixões. As vezes eram um par homosexual que discutia os preconceitos pelo qual a classe passava. Outras vezes um ou outro representava o marido que descobrira a traição da esposa( Raquel era a traíra, claro) e o outro tentava acalmar a situação. Era sempre uma viagem muito divertida. E ainda tinha aquele negócio de quem puxava a cordinha do sinal primeiro. Felipe e Eduardo costumavam disputar quem dava sinal primeiro. Mas só valia se a 'cordinha ' fosse puxada um ponto antes da parada. Pareciam duas crianças que não tiveram infãncia e resolveram , depois de adultos, reinvidicar esse direito. O direito de brincar e ser feliz. Raquel adorava aqueles dois. Eles eram muito mais que amigos. Eram quem davam á vida dela um sentido mais agradável.
No entanto algo estranho devia ter acontecido com Felipe. Ele estava diferente naquela sexta. Eduardo fora quem notou primeiro. Jamais ele havia conquistado duas vitórias seguidas no "jogo da cordinha' . E nenhuma vitória seria tão fácil como aquelas, pelo simples e estranho fato de que Felipe estava dormindo. Isso mesmo! O guerreiro dormira boa parte do percurso. Por pouco não repousara a cabeça no ombro de um estranho que , de tempo em tempo, o acotovelava para acordá-lo. Era uma situação estranha e ao mesmo tempo divertida. Repentinamente , Raquel, numa atitude maquiavélica, surpreendeu Eduardo . Vendo que a próxima estação era Palmeiras Barra funda e que todos desceriam naquela estação, sentiu que era a hora do golpe fatal . Não havia melhor momento para mostrar as garras. Pobre felipe! Acordara assustado com os gritos da amiga:
____Felipe! puxa a cordinha , dá o sinal, a gente desce no próximo!!! Vai, vai vai!!!
E Felipe foi. Num salto magistral saltou sobre o homem que antes o acotovelava. Ainda meio sonolento , Felipe procurava desesperadamente a tal "cordinha'. Como se fosse possível puxar o sinal dentro do Metrô. Só após alguns segundos de consciência restabelecida , é que Felipe sentira o golpe. Um vagão inteiro estava rindo dele. Crianças, mulheres, jovens e idosos...todos riam desvairadamente daquele homem que tentava dar o sinal no metrô.
As portas se abriram. Todos saíram com um sorriso no rosto. E Felipe, agora recuperado plenamente, reinvidicava dois pontos extras. Afinal, fora graças a sua coragem de dar o sinal no metrô, que todas as pessoas foram pra casa um pouco mais feliz. Todos os escravos estavam aforriados , de uma só vez!!!
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