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1- Meninos da Sé

Corre o menino no meio do povo
Aconteceu de novo, na multidão
Ouve-se um grito: " assalto!!! socorro"
Corre o menino com a bolsa na mão.
Pára o menino no sapateiro
entrega o dinheiro e joga a bolsa fora
Momentos depois , o menino faceiro,
È visto com o rosto no saco de cola.
Que vida é essa menino, que droga é esse destino
Que quem te vê te ignora
Cadê o livro, cadê o ensino
Cadê os amigos , menino,
Cadê a pipa, cadê a bola.?
Corre o menino da viatura
A vida é tão dura ...mas é assim que ela é
Corre menino ...assim sem destino
Pobre menino...menino da Sé.
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2- Lição da Vida

O calor estava insuportável aquele dia, e o verão nem havia chegado." È o tal de efeito estufa, aquecimento global, el ninõ...sei lá." , pensou Douglas. Fazia muito sol. Ele sabia que uma cerveja bem gelada seria um conforto necessário naquele momento, mas sabia também que esse tipo de conforto em horário de trabalho traria um desconforto imenso depois. Resolveu não arriscar.A Avenida São João que em tempos gloriosos inspirara os poetas , parecia um celeiro de desempregados e oportunistas. Tinha louco pra tudo. Um maluco amarrou uma corda em dois mastros e fazia malabarismos caminhando sobre a corda engolindo uma espada. Um monte de malucos o observavam atentos e ávidos por uma queda ou sei lá o que. Não muito distante dele um outro prometia arriscar a pele atravessando um arco rodeado de facas ' cortantes' diante de uma platéia assustada e ao mesmo tempo excitada, completamente hipnotizada. Douglas sabia que a intenção do rapaz era apenas vender suas pomadas milagrosas e medicinais. Ele sabia que o rapaz usaria de uma lábia convincente para iludir a multidão e lucrar com seus sórdidos métodos de persuasão. Ele sabia que em pouco mais de duas horas o rapaz pegaria suas tralhas e , na maior cara de pau , sairia dali para espanto da multidão que , ainda enfeitiçada , continuaria esperando pelo salto mortal. Um bando de iludidos, enganados , idiotas...Ele sabia. E sabia porque alguns dias atrás ele estava na platéia dos iludidos. E até hoje não conseguiu explicar pra esposa porque comprou uma pomada sem prescrição médica.
Estava em horário de almoço. Nesse dia, diferentemente dos outros, preferira almoçar sozinho. Geralmente se reunia com a turma do escritório para almoçar em um restaurante self-service perto da empresa. Pagava as refeições com o mísero vale-refeição de 8 reais que era insuficiente , mas quebrava um galho. Não fora a necessidade de vender os tickets para arrecadar um extra, ele estaria lá ; se divertindo com as velhas piadas do Edgar, fantasiando com os decotes da Sheila e degustando o melhor bife acebolado de São Paulo. No entanto ele estava ali na fila do churrasquinho grego. Era o que ele podia fazer com 5 reais. Comeria 3 churrascos com salada e teria direito a beber quantos sucos quisesse. Tentador , não? " Tentador uma ova" , diria Douglas. Desesperador, isso sim. O atendente , usando um avental branco , sujo, aberto no peito, suava copiosamente. Manuseava com certa maestria uma faca afiada . Com extrema facilidade cortava o pão, fatiava a carne, acrescentava um molho vinagrete e em surpreendentes 20 segundos tinha preparado parte do almoço de Douglas. Que desespero, hein? Naquele momento, para as dezenas de pessoas que se acotovelavam em busca de um espaço próximo ao carrinho do churrasco, pouco importava a péssima condição de higiene do local, o catchup que escorria do pão do exagerado cliente ao lado , ou até mesmo a nojenta visão de uma barba embebida de maionese do senhor que não dava a mínima pra tal de etiqueta. Todo esse cenário desanimador se desfazia diante da imagem imponente e sedutora da faca cortando e a carne caindo na travessa e indo pro pão, que delírio! E para conspirar contra os principios básicos do orgulho, a senhora fome. Fome que iguala a todos e derruba tabus, elimina preconceitos. Quem era Douglas diante da fome? Não era diferente de nenhum daqueles grotescos seres que o cercavam. Ele era mais um, escravo da fome e da grana.
Finalmente chegara sua vez. O atendente o serviu sem sequer olhar em seus olhos. Era um robô. Uma máquina de fazer lanches . Douglas manteve a pose. Comeu o primeiro lanche com certa delicadeza e postura. O que de imediato chamou a atenção de alguns. O que aquele almofadinha estava fazendo ali? Por quê não ia comer no restaurante? Será que vai pagar com cheque ou no cartão? Mal havia terminado o primeiro e Douglas pedira o segundo. "Sem salada , por favor'. O lanche até que estava gostoso, porém a salada tinha um gosto estranho. O tempero da carne estava maravilhoso. " Que tempero seria esse? ". Não era de se admirar que tantas pessoas comprassem o churrasquinho. Concluiu que não era só o preço a atração. O bicho era gostoso mesmo. Logo ao receber o segundo lanche já fazia planos para o terceiro. Que delícia!
Douglas já havia dado a primeira mordida no segundo lanche quando aquelle par de olhos sofridos o encararam. Era o sofrimento em um corpo raquítico de criança. Aquele ser impotente , surrado pela vida, desconhecido pela assistência social, escudo dos direitos humanos ...estava ali comendo com os olhos . Os olhos alcançavam o que a boca ansiava. Surpreendentemente o garotinho de rua falou. Na verdade não foi bem uma fala, foi um pedido.

_____Moço me dá um real?
Douglas sabia o que aquilo significava. Era uma mensagem codificada que só quem já sofreu na vida, como ele, seria capaz de decifrar. Não era 1 real que o garoto queria. Era socorro. Ele, o garoto, era a vítima mais cruel da implacável senhora fome.
_____Posso saber pra que o "Senhor' quer um real?
A pergunta não tinha a intenção de humilhar o garotinho e sim de alertar a todos, que assistiam aquela cena , para a realidade que nos mata silenciosamente. Era um grito de ' não estamos sós" , era um alerta de ' alguém precisa de nós'.
_____É que eu tô com fome moço.
Aquelas palavras foram mais afiadas que a lãmina da faca , que cortava a carne, que saciava a fome , que matava o garoto. " Eu tô com fome". Douglas encarou algumas pessoas e para sua surpresa e indignação, o semblante delas não apresentava nenhuma piedade ou cumplicidade. Aquelas pessoas pareciam hipnotizadas pela fome ou dominadas pela indiferença. Era como se aquela situação não lhes afetassem de maneira alguma." Se o garoto tá com fome é problema dele." " Cada um com seu cada um" , " Não tenho dinheiro pra sustentar vagabundo'
Douglas sentiu nojo da raça humana. Como podem ser tão mesquinhos, insensíveis, desumanos? Será que ninguém ali tinha filhos? Faltava Deus no coração daqueles pobres coitados. Mas Deus estava presente no coração de Douglas. E era esse o melhor momento de apresentar a maior lição que o Mestre ensinou. A caridade. O amor ao próximo. Era o momento de ser o bom samaritano.
_____Olha aqui filho...eu sei que o que você realmente quer não é um real. Você quer comer, né?
Dito isso ordenou ao atendente que caprichasse um lanche pro garoto.
Naquele instante, para surpresa de Douglas, a máquina de fazer lanches, o robô , o ser incomunicável que mal olhava seus clientes nos olhos , o encarou. Era o senhor do desprezo e frieza:
_____Tem certeza que quer fazer isso, mestre!
Mestre? Que história é essa de 'mestre'. E como assim ' tem certeza?"... Claro que ele tinha certeza. Era questão de honra. E se naquele momento ele é o "mestre' , seria muito bom se fosse respeitada a vontade do 'mestre', não?
_____Claro que tenho certeza. Pago o lanche com muito prazer.
Com voz firme e de certa forma autoritária o garoto ratificou:
_____Moço , eu só quero 1 real, por favor!
_____Calma filho, o rapaz vai fazer seu lanche.
_____Só um real moço!
Douglas , num ato de plena misericórdia, abriu mão de seu próprio lanche e ofereceu ao menino.
_____Vai comendo esse aqui enquanto o moço prepara o seu. Eu dei apenas uma mordida, viu? O lanche tá delicioso!
O que aconteceu a seguir não foi surpresa pra ninguém. Era como se todo mundo soubesse o desfecho de um filme que estava sendo repetido pela enésima vez.. O mesmo cenário, o mesmo script, o mesmo ator principal e um novo e talentoso coadjuvante. E o Oscar de otário da vez vai para....
_____ Quantas vezes eu tenho que dizer que eu só quero 1 real? Caralh...mano. Enfia essa p....de lanche no olho do seu c...
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3- Alforria

Era sexta feira para todas as pessoas dentro do metrô. Mas para Raquel, Felipe e Eduardo , era muito mais que sexta-feira. Era o dia da alforria. Eles , escravos do trabalho , estavam deixando a senzala denominada" empresa" para finalmente encontrarem a liberdade denominada" casa." Iam e voltavam do trabalho juntos, todos os dias. Enfrentavam dois ônibus e um metrô em quase duas horas de percurso entre Mauá e Barra Funda. A rotina só não era pior porque eles estavam juntos. Eram amigos de longa data e foi essa amizade que os conduziram á mesma empresa.
Raquel era casada, mas não usava aliança no dia a dia, só quando estava em casa ou em alguma reunião social, especialmente se o marido, policial militar , estivesse presente. Questionada porquê não usava aliança , Raquel limitava-se a dizer que era algo muito pessoal. Vai entender , né? Felipe e Eduardo eram solteiros , pelo menos era o que diziam; e realmente nunca haviam mencionado nenhuma companheira fixa. Eram adeptos do "viver a vida'.
E era vivendo a vida que eles se divertiam criando personagens, brincando com a imaginação das pessoas, fazendo o tempo passar. As vezes Felipe e Eduardo eram homens apaixonados que se declaravam para uma confusa Raquel , dividida entre duas paixões. As vezes eram um par homosexual que discutia os preconceitos pelo qual a classe passava. Outras vezes um ou outro representava o marido que descobrira a traição da esposa( Raquel era a traíra, claro) e o outro tentava acalmar a situação. Era sempre uma viagem muito divertida. E ainda tinha aquele negócio de quem puxava a cordinha do sinal primeiro. Felipe e Eduardo costumavam disputar quem dava sinal primeiro. Mas só valia se a 'cordinha ' fosse puxada um ponto antes da parada. Pareciam duas crianças que não tiveram infãncia e resolveram , depois de adultos, reinvidicar esse direito. O direito de brincar e ser feliz. Raquel adorava aqueles dois. Eles eram muito mais que amigos. Eram quem davam á vida dela um sentido mais agradável.
No entanto algo estranho devia ter acontecido com Felipe. Ele estava diferente naquela sexta. Eduardo fora quem notou primeiro. Jamais ele havia conquistado duas vitórias seguidas no "jogo da cordinha' . E nenhuma vitória seria tão fácil como aquelas, pelo simples e estranho fato de que Felipe estava dormindo. Isso mesmo! O guerreiro dormira boa parte do percurso. Por pouco não repousara a cabeça no ombro de um estranho que , de tempo em tempo, o acotovelava para acordá-lo. Era uma situação estranha e ao mesmo tempo divertida. Repentinamente , Raquel, numa atitude maquiavélica, surpreendeu Eduardo . Vendo que a próxima estação era Palmeiras Barra funda e que todos desceriam naquela estação, sentiu que era a hora do golpe fatal . Não havia melhor momento para mostrar as garras. Pobre felipe! Acordara assustado com os gritos da amiga:
____Felipe! puxa a cordinha , dá o sinal, a gente desce no próximo!!! Vai, vai vai!!!
E Felipe foi. Num salto magistral saltou sobre o homem que antes o acotovelava. Ainda meio sonolento , Felipe procurava desesperadamente a tal "cordinha'. Como se fosse possível puxar o sinal dentro do Metrô. Só após alguns segundos de consciência restabelecida , é que Felipe sentira o golpe. Um vagão inteiro estava rindo dele. Crianças, mulheres, jovens e idosos...todos riam desvairadamente daquele homem que tentava dar o sinal no metrô.
As portas se abriram. Todos saíram com um sorriso no rosto. E Felipe, agora recuperado plenamente, reinvidicava dois pontos extras. Afinal, fora graças a sua coragem de dar o sinal no metrô, que todas as pessoas foram pra casa um pouco mais feliz. Todos os escravos estavam aforriados , de uma só vez!!!
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4- O que fazer?

" Eu não posso negar meus princípios" . Pensou Araújo enquanto dirigia seu carro em direção á mais difícil reunião que teria em toda sua vida. Lá estariam todos os seus colegas parlamentares, inclusive dois da oposição. " Minha mulher e meus filhos confiam em mim e não posso desonrá-los". Os pensamentos de Araújo , deputado federal dos mais respeitados em Brasília e provável candidato ao governo nas próximas eleições, os conduziam para uma posição ética e memorável. Era o que se esperava de um homem honrado. Araújo sabia que aquela reunião seria um divisor de águas. Ele estava presente nas outras e o que ouvira não agradara seu coração. No entanto , ainda que não se agradasse , não podia se rebelar contra seus amigos. Cada cabeça uma sentença. Ele não estava obrigado a aceitar qualquer proposta que fosse contra seus ideais de honestidade e integridade. Mas não seria juiz de ninguém. Principalmente daqueles que lhe foram fiéis todos esses anos, e que serão fundamentais na campanha ao governo.
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5- armário

Quem sou eu? Por quê não consigo me libertar desse desejo? Isso não é e não pode ser real. È pecado, é abominação diante de Deus. Por quê isso acontece comigo? Será que alguém percebe? Será que ele percebe? E ela? Será que ela sabe que é nele que eu penso quando durmo com ela? Será que ele sabe que não é só amizade que sinto por ele? E se soubesse, me perdoariam? Acho que não teria coragem de falar pra ele. Acho que não teria coragem de enfrentar ela. Ela que tanto me ama e em mim deposita seus sonhos de maternidade. Ele que tanto me apoia , que me socorre em todos os momentos de dificuldade. Ela que tanto o admira . Ele que tanto a respeita. Ele, Ela ...e eu?
Amanhã eles estarão no estádio.
Sentirei o perfume dela que certamente me perfumará também. Sentirei o cheiro dele que certamente me confundirá de novo. Sentirei minha insegurança caminhando em corda bamba.
Melhor deixar como está...prefiro as migalhas que a vida me oferece e o banquete de meus pensamentos á solidão que me castigará caso o armário se abra.
Amanhã eles estarão no estádio.
Sentarão lado a lado na tribuna do Morumbi.
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6- Amigo inimigo

Felipe demorou para entender o que estava acontecendo. Tudo parecia tão irreal. Sonho não era, já teria acordado. Nunca um sonho demoraria tanto. Poderia ser uma brincadeira. Não , não podia. Algo muito estranho estava acontecendo. Que lugar era aquele? Quanto tempo estava ali? Por que estava amarrado? O medo tomou conta do jovem empresário que , horas atrás , comemorava mais um aniversário.Ainda sentia muita dor no corpo
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7- Bando de loucos

" Onde está meu manto?' O grito de Souza ecoa pela casa. "Vai começar a loucura" , pensou Andressa, já antevendo o que aconteceria. Era sempre assim em dia de jogo do Corinthians. Ela sabia que ao casar com ele, seria traída a cada partida. Seria deixada de lado, trocada por um bando de marmanjos ensandecidos que fariam de sua casa uma extensão do Pacaembu. Seu sofá macio seria a arquibancada, onde amontoados, suados e ( provavelmente) bêbados, aquele bando de loucos( literalmente)gritariam incansavelmente a música menos criativa que ela já ouvira em toda sua vida...era um tal de "não pára, não pára, não pára".
As crianças já estavam acostumadas e , por incrível que pareça, adoravam o dia de jogo. Era o dia em que elas podiam ficar acordadas até tarde. Era o dia em que pipoca e refrigerante substituíam o jantar. Era o dia em que viam o pai mais feliz.
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